domingo, 9 de janeiro de 2011

um post silencioso, uma queda silenciosa, um convite

Tiago,

quando eu não estava desenhando, recortando livros e revistas empoeiradas ou elaborando experiências sem saber o significado da palavra método, eu assistia televisão. Assistia muito. Assistia e pensava que jamais moraria num interior onde não há energia. Que passear de carro seria muito melhor se lá dentro pudéssemos ver televisão. E já decidira com meu irmão a herança com a qual cada um ficaria depois que meus pais morressem. Eu ficaria com a TV, lógico.

A TV é uma máquina de bem-estar. De concentração. E de corte. Diferente de um ventilador, que consegue simular uma paisagem sonora distante, ulterina, acabando com o silêncio fantasmagórico, o tédio antes do sono, a Televisão exige, nos agarra pela mão. A TV é estranha. E a TV é estranha porque, diferente de qualquer outro eletrodoméstico exceto o rádio, ela possui uma programação.

A programação da TV nos visita toda hora. A programação da TV é um estranho inquilino. A programação da TV mora com agente mas não conhecemos, ou fingimos conhecer.

O ponto que eu quero chegar é esse. Entre as coisas que mais me assustam na programação da TV é uma coisa que me assusta em todos os canais: os vídeos de humor. Quando pequeno, e possuía uma relação erótica com o aparelho, eu me desfazia em risos arrepiados. Hoje eu sinto medo. Mas antes, quando eu era assim pequeno, o Faustão dava prêmio em dinheiro para as pessoas que enviassem as melhores videocassetadas. E eu queria tanto uma câmera para poder, ter o poder, de estar am algum lugar vendo as coisas certas no momento certo. O instante mágico que é o tombo. Rir infinitamente do mesmo instante. Mandar para o Faustão e compartilhar com todo o Brasil. E em troca ainda ganhar dinheiro.

Hoje elas me assustam e me atraem. Porque elas são uma variação do horror. As pessoas falam de banalização da violência. Penso que os programas policiais são uma necessidade insípida de ficção. A Tragédia grega real e ao vivo. O vídeo de humor seria portanto a variação da comédia?

Penso na queda. No fato de que uns 90% desses vídeos são de pessoas caindo. Os outros 10% são de animaizinhos, sustos, socos acidentais, e demais gracejos. Penso nesses vídeos supercurtos, que não possuem prólogo ou epílogo. Que carregam numa único plano autônomo o universo da graça. Imagino as pessoas nos anos 90 mandando essas fitas pro Faustão. Elas fazem uma cópia de sei lá, um casamento. O casamento, o registro da cerimônia está todo lá. Mas só interessa um instante. O instante inesperado e universalmente inteligível. O momento da queda. As pessoas escrevem "caro Faustão, sua videocassetada está na minutagem 36:44". E de repente uma construção sutil de pessoas e suas devidas marcas, cunhado, madrinha, dama de honra, se desfaz em função de um instante.

Mas talvez o fenômeno que tanto me assusta quanto me atrái é a dor. A dor imprevisível.
A dor sei lá o quê que se transforma em lembrança e depois em riso.

Quero ainda falar de tantas outras coisas.
Aguardo sua resposta,

Leo.


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