domingo, 16 de janeiro de 2011

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Não mais chame de cena banal






Léo,




não sei se o Bresson que você citou no texto anterior é o mesmo Bresson que imagino, Henri Cartier-Bresson, o fotógrafo. Li agora uma matéria sobre ele, na edição 145 da BRAVO! Ele entendia de acasos. As composições de suas fotos baseavam na expressão Momento Decisivo (expressão que virou sua marca). "O termo sugere a existência de um instante único, tão sublime quanto fugaz, quando todos os elementos de uma cena se combinariam para uma foto".

Reparando nas fotos, o que surpreende é como todas as coisas que acabavam sendo enquadradas na fotografia pareciam realmente se moverem harmonicamente para momento, a foto. Te envio o link da matéria que explica bem isso, além do fato de como ele se comportava para atrair essas cenas, que não era uma busca total do inesperado, simplesmente o "deixar acontecer". Estamos encontrando caminhos, meu rapaz.

O link da matéria na BRAVO!
http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/pescador-flagras-495545.shtml

Eletromagnetismo

Léo,

no momento agora sinto que não tenho dúvidas sobre nada do que será feito em nosso filme. As questões sobre como trataremos isso, atores dispostos a cair, em que gêneros encaixaremos, tudo isso de alguma forma eu já sentia como um assunto que merecia pouca abordagem (alguma sim, porque é o que usaremos quando alguém desconfiar do nosso próposito, o real). Até mesmo com tudo que você me colocou, serviu-me sobretudo como a resposta que eu procurava.

Estou mais disposto, não que eu não tivesse antes, mas você me conhece, conhece minha tendência de deixarem as coisas se afrouxarem, a tal falta de disciplina capricornina, minha autodestruição. Mas isso é um projeto que quero levar muito a sério, com rigor, respostas rápidas, enfim, não quero ficar me autoestimulando, porque isso vai deixar um pouco a minha situação frágil, o que não quero, porque penso que sou corajoso e penso que isso de fazer uma coisa como se fosse a última é o que vale.

Gostei mesmo de como "Através da Oliveiras" se desenvolveu. Quero dizer, da ideia do filme. Aproveitar as situações, os acasos, as condições de um acontecimento (por mais banal e sem graça que isso possa parecer) e autenticá-las, torná-las convictas (acho que entendo o que você diz sobre "Je Veux Regarden", "Uma ética da necessidade, uma estética da necessidade"). E fazer isso não é coisa de gênio. Não é contar com a sorte. Mais que comprometimento com o viver, há a urgência (não totalmente desespero) de constituir o que muitas vezes chamamos de real. Necessidade. O que me leva a acreditar que estamos no centro de uma órbita de acasos. Que toda a teoria eletromagnética deve ser usada para tudo o que nos envolve, não só para entender procedimentos de atração/repulsão. Então, sim, podemos conduzir energias a nosso favor.

Pedro Costa se garante!

Nada de indicações dessa vez.

Tiago M.

Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1970)

Tiago,

García Márquez me ensinou que quando se escreve um conto deve-se começar pensando que vai se escrever o maior dos contos nunca antes escrito, "porque esse entusiamo tende a diminuir". Combinado ao meu sol em capricórnio e meu ascendente áries sigo bastante ao pé da letra o conselho. Seguir é uma palavra estranha porque o que faço na verdade, o que as pessoas fazem na verdade quando se dão com um aforismo é identificar-se com eles, ou não. O título do post é o mesmo título de um filme de João César Monteiro, um diretor português, acho que você sabe quem ele foi.Encontrei um vídeo chamado "Je Veux Regarder", um vídeo de um cara que cruzou uma cena deEustache e uma cena de Bresson, e que me fez mais uma vez ficar emocionado com uma coisa. Éincrível como uma estética, um 'jeito' de filmar, nasce de uma ética, de uma convicção (e peloamordedeus convicção não é o mesmo que certeza). Basta ler parte dos escritos do Bresson e depois assistir essa cena. Não é algo vertical, é algo horizontal - ética/estética. Uma ética da necessidade, uma estética da necessidade.


Je veux te regarder from Miguel Armas on Vimeo.

Você me pergunta como será possível invocar o inesperado, mas você já sabe a resposta. Tudo é inesperado, e é justamente na tendência de querer domá-lo que o filme se constrói. O inesperado são os vídeos de queda, nosso esforço em querer fazer uma 'cópia autenticada' (em breve citarei mais uma vez kiarostami) é o formalismo técnico, escroto, oitocentista, insano, como o emplastro do Brás Cubas. Invocar o inesperado é parar no meio da rua, invocar o inesperado é fechar os olhos e dormir, deixar uma câmera ligada com a convicção de que coisas inesperadas surgirão faz com que coisas 'inesperadas' surjam. Porque as coisas convivem nesse terreno que é o tempo, e tudo funciona como no experimento mental do Macaco de Shakespeare ("O Teorema do macaco infinito afirma que um macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um infinito espaço de tempo irá quase certamente criar um texto qualquer escolhido, como por exemplo a obra completa de William Shakespeare." wikipedia). Você deve ter mais confiança nas coisas invisíveis. Realmente não dá para prever o acaso, mas podemos esperar por ele. E ainda: nesse filme há um anti-acaso, um acaso arquitetado, não ensaiado, um acaso elevado a dois. Jean Renoir mandava abrir as janelas do estúdio para que a vida pudesse entrar. Vamos explodir a casa.

(Isso não quer dizer que um texto ensaiado, algo estritamente coreografado, não possa emanar algo vivo. Kiarostami, e principalmente o filme que você citou, se constrói sobre escombros, físicos e subjetivos. Te dar um painel arrepiante: O longa de Kiarostami "Onde é a casa de meu amigo" tinha duas crianças da região como atores. Dali a alguns anos um grande terremoto atinge o local onde foram feitas as filmagens. Mais da metade da população do local morreu. Kiarostami colocou o filho no carro e foi atrás de saber dos dois atores do "Onde é a casa de meu amigo" que já deviam ter uns quinze anos na época. Kiarostami refaz o caminho de sua busca com dois atores, um pai cineasta e um filho, e disso surge um filme "A Vida e nada Mais". Em 1994 Kiarostami faz uma dobra ainda maior. Ele faz o "Através das Oliveiras", que seria um "making off" das filmagens de sse "A Vida e nada Mais". Kiarostami adiciona e se anula, fia e desfia. A questão documentário/ficção nunca interessou menos. O que está como filme é muito maior do que esse jogo de gêneros.)

Entrevistador: O seu cinema não vê limites entre ficção e documentário. Existe uma resistência no cinema mundial em permitir que os gêneros se misturem?

Pedro Costa: Está cada vez pior, eu acho. Acho que isso vem até das escolas de cinemas, mesmo as respeitadas e sérias. São elas que fazem uma espécie de separação. É como dizer: "Atenção, essas coisas não se tocam. Há regras diferentes para cada gênero". É assustador. Um dia, por acaso, pude acompanhar uma filmagem de alunos da Escola de Cinema de Lisboa. A certa altura, um aluno estava enrolando um cabo e outro garoto veio ter com ele: "Não faça isso. O senhor professor disse que o diretor do filme nunca pode arrumar os cabos". Eu fiquei tão escandalizado. Nós sentimos o que é um documentário e o que é uma ficção. O que é interessante é que as duas coisas se confundam. Em qualquer realidade há ficção, há delírios. Em qualquer ficção há um fundo de realidade também. Eu nem penso muito nisso. Me limito a avançar com os filmes.

Entrevistador: Em festivais de cinema, é comum essa separação entre os gêneros.

Pedro Costa:Em alguns festivais, me parece que as verdadeiras questões são deixadas para trás. Um dos festivais, um brasileiro, se chama É Tudo Verdade. Há outro, na França, chamado Cinema do Real, que é uma coisa inacreditável de tão estúpida. Separar os gêneros é a única questão que não me interessa quando faço um filme.

Entrevistador: Neste momento, existe uma discussão aqui mesmo, em Brasília, sobre dividir o
nosso festival de cinema brasileiro entre filmes de ficção e documentários…

Pedro Costa:Isso não deveria acontecer. Nos festivais, não deveria existir nem a divisão entre curtas e longas-metragens. Daqui a pouco teremos festivais de anões. Já existe o de direitos humanos, direitos dos cães...

Você me pergunta como trataremos a queda e como conduziremos os atores para isso. Você mesmo responde que deixaremos as coisas fluirem. Mas não acredito em um fluxo frouxo. A relação que surge entre realizador e ator - principalmente num projeto como esse - deve ser de absoluta mútua confiança. Não é como se pudéssemos simplesmente deixar nas mãos dos atores. Não é possível. Nossa escolha de olhar, a escolha deles de manter, é tão de retroalimentação, de feedback, que não há como se eximir. São responsabilidaes, conjuntas. Éticas.

Espero que a coisa esteja um pouco mais ensolarada,

Leo.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Qualquer coisa para seus significados

Léo,

muita coisa será importante a partir de agora. E já que estamos trabalhando juntos, suponho que você deva estar ansioso com um monte de coisas, principalmente com suas idéias "quentinhas" das quais eu aguardo com certo pavor. Existe sempre um homem atrás da porta. Alguém prestes a cair.

Por isso, meu caro, a questão do filme (a queda) é a questão que vai nos envolver. Já sabemos do que o filme vai tratar. O que agora nos cabe é induzir a questão para bem perto do que queremos. Por isso o site, para refletir nossas questões.

Por isso eu penso que a coisa está bem mais clara pra você, sobretudo aquilo que a provoca. Os momentos de terror e angustia que está segundos antes do ocorrido, o pavor e a sentença de que estamos diante de algo inesperado. Por isso eu penso, por ser inesperado, será mesmo possível invocá-la? Será mesmo que somos capazes de fazermos a alquimia que for e trazer a coisa à tona? Através de ensaios? Eu penso que manisfetar a queda é pensar que não existe lei ou fórmula para isso. Como não existe fórmula para prever o acaso.

Então a questão é (e minha dúvida desde nossa conversa no alpendre): como trataremos a queda? Como conduziremos nossos atores para aquilo que queremos?
E em alguma parte sei que a resposta para isso é que não há resposta. Que vamos deixar a coisa toda fluir, e que isso é sim o modo, o único modo de tratar com o inesperado, com o acaso. Deixar que tudo se resolva sem ninguém aparentemente no comando. Dizer "aparentemente" é dizer que nunca se sabe quem/o que vai provocar a queda, mesmo que no nosso trato saberemos exatamente de onde a coisa vai vir, ou ao menos quem vai atingir (nossos atores, no caso).

Está aqui o filme que comentei, que é do Abbas e não do Apichatpong sobre o fato de se fazer ficção paracer documentário, vice-versa. Vamos ver?

http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2011/01/atraves-das-oliveiras-1994.html

Responda logo!
Malhas

domingo, 9 de janeiro de 2011

um post silencioso, uma queda silenciosa, um convite

Tiago,

quando eu não estava desenhando, recortando livros e revistas empoeiradas ou elaborando experiências sem saber o significado da palavra método, eu assistia televisão. Assistia muito. Assistia e pensava que jamais moraria num interior onde não há energia. Que passear de carro seria muito melhor se lá dentro pudéssemos ver televisão. E já decidira com meu irmão a herança com a qual cada um ficaria depois que meus pais morressem. Eu ficaria com a TV, lógico.

A TV é uma máquina de bem-estar. De concentração. E de corte. Diferente de um ventilador, que consegue simular uma paisagem sonora distante, ulterina, acabando com o silêncio fantasmagórico, o tédio antes do sono, a Televisão exige, nos agarra pela mão. A TV é estranha. E a TV é estranha porque, diferente de qualquer outro eletrodoméstico exceto o rádio, ela possui uma programação.

A programação da TV nos visita toda hora. A programação da TV é um estranho inquilino. A programação da TV mora com agente mas não conhecemos, ou fingimos conhecer.

O ponto que eu quero chegar é esse. Entre as coisas que mais me assustam na programação da TV é uma coisa que me assusta em todos os canais: os vídeos de humor. Quando pequeno, e possuía uma relação erótica com o aparelho, eu me desfazia em risos arrepiados. Hoje eu sinto medo. Mas antes, quando eu era assim pequeno, o Faustão dava prêmio em dinheiro para as pessoas que enviassem as melhores videocassetadas. E eu queria tanto uma câmera para poder, ter o poder, de estar am algum lugar vendo as coisas certas no momento certo. O instante mágico que é o tombo. Rir infinitamente do mesmo instante. Mandar para o Faustão e compartilhar com todo o Brasil. E em troca ainda ganhar dinheiro.

Hoje elas me assustam e me atraem. Porque elas são uma variação do horror. As pessoas falam de banalização da violência. Penso que os programas policiais são uma necessidade insípida de ficção. A Tragédia grega real e ao vivo. O vídeo de humor seria portanto a variação da comédia?

Penso na queda. No fato de que uns 90% desses vídeos são de pessoas caindo. Os outros 10% são de animaizinhos, sustos, socos acidentais, e demais gracejos. Penso nesses vídeos supercurtos, que não possuem prólogo ou epílogo. Que carregam numa único plano autônomo o universo da graça. Imagino as pessoas nos anos 90 mandando essas fitas pro Faustão. Elas fazem uma cópia de sei lá, um casamento. O casamento, o registro da cerimônia está todo lá. Mas só interessa um instante. O instante inesperado e universalmente inteligível. O momento da queda. As pessoas escrevem "caro Faustão, sua videocassetada está na minutagem 36:44". E de repente uma construção sutil de pessoas e suas devidas marcas, cunhado, madrinha, dama de honra, se desfaz em função de um instante.

Mas talvez o fenômeno que tanto me assusta quanto me atrái é a dor. A dor imprevisível.
A dor sei lá o quê que se transforma em lembrança e depois em riso.

Quero ainda falar de tantas outras coisas.
Aguardo sua resposta,

Leo.