Tiago,
García Márquez me ensinou que quando se escreve um conto deve-se começar pensando que vai se escrever o maior dos contos nunca antes escrito, "porque esse entusiamo tende a diminuir". Combinado ao meu sol em capricórnio e meu ascendente áries sigo bastante ao pé da letra o conselho. Seguir é uma palavra estranha porque o que faço na verdade, o que as pessoas fazem na verdade quando se dão com um aforismo é identificar-se com eles, ou não. O título do post é o mesmo título de um filme de João César Monteiro, um diretor português, acho que você sabe quem ele foi.Encontrei um vídeo chamado "Je Veux Regarder", um vídeo de um cara que cruzou uma cena deEustache e uma cena de Bresson, e que me fez mais uma vez ficar emocionado com uma coisa. Éincrível como uma estética, um 'jeito' de filmar, nasce de uma ética, de uma convicção (e peloamordedeus convicção não é o mesmo que certeza). Basta ler parte dos escritos do Bresson e depois assistir essa cena. Não é algo vertical, é algo horizontal - ética/estética. Uma ética da necessidade, uma estética da necessidade.
Je veux te regarder from Miguel Armas on Vimeo.
Você me pergunta como será possível invocar o inesperado, mas você já sabe a resposta. Tudo é inesperado, e é justamente na tendência de querer domá-lo que o filme se constrói. O inesperado são os vídeos de queda, nosso esforço em querer fazer uma 'cópia autenticada' (em breve citarei mais uma vez kiarostami) é o formalismo técnico, escroto, oitocentista, insano, como o emplastro do Brás Cubas. Invocar o inesperado é parar no meio da rua, invocar o inesperado é fechar os olhos e dormir, deixar uma câmera ligada com a convicção de que coisas inesperadas surgirão faz com que coisas 'inesperadas' surjam. Porque as coisas convivem nesse terreno que é o tempo, e tudo funciona como no experimento mental do Macaco de Shakespeare ("O Teorema do macaco infinito afirma que um macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um infinito espaço de tempo irá quase certamente criar um texto qualquer escolhido, como por exemplo a obra completa de William Shakespeare." wikipedia). Você deve ter mais confiança nas coisas invisíveis. Realmente não dá para prever o acaso, mas podemos esperar por ele. E ainda: nesse filme há um anti-acaso, um acaso arquitetado, não ensaiado, um acaso elevado a dois. Jean Renoir mandava abrir as janelas do estúdio para que a vida pudesse entrar. Vamos explodir a casa.(Isso não quer dizer que um texto ensaiado, algo estritamente coreografado, não possa emanar algo vivo. Kiarostami, e principalmente o filme que você citou, se constrói sobre escombros, físicos e subjetivos. Te dar um painel arrepiante: O longa de Kiarostami "Onde é a casa de meu amigo" tinha duas crianças da região como atores. Dali a alguns anos um grande terremoto atinge o local onde foram feitas as filmagens. Mais da metade da população do local morreu. Kiarostami colocou o filho no carro e foi atrás de saber dos dois atores do "Onde é a casa de meu amigo" que já deviam ter uns quinze anos na época. Kiarostami refaz o caminho de sua busca com dois atores, um pai cineasta e um filho, e disso surge um filme "A Vida e nada Mais". Em 1994 Kiarostami faz uma dobra ainda maior. Ele faz o "Através das Oliveiras", que seria um "making off" das filmagens de sse "A Vida e nada Mais". Kiarostami adiciona e se anula, fia e desfia. A questão documentário/ficção nunca interessou menos. O que está como filme é muito maior do que esse jogo de gêneros.)
Entrevistador: O seu cinema não vê limites entre ficção e documentário. Existe uma resistência no cinema mundial em permitir que os gêneros se misturem?
Pedro Costa: Está cada vez pior, eu acho. Acho que isso vem até das escolas de cinemas, mesmo as respeitadas e sérias. São elas que fazem uma espécie de separação. É como dizer: "Atenção, essas coisas não se tocam. Há regras diferentes para cada gênero". É assustador. Um dia, por acaso, pude acompanhar uma filmagem de alunos da Escola de Cinema de Lisboa. A certa altura, um aluno estava enrolando um cabo e outro garoto veio ter com ele: "Não faça isso. O senhor professor disse que o diretor do filme nunca pode arrumar os cabos". Eu fiquei tão escandalizado. Nós sentimos o que é um documentário e o que é uma ficção. O que é interessante é que as duas coisas se confundam. Em qualquer realidade há ficção, há delírios. Em qualquer ficção há um fundo de realidade também. Eu nem penso muito nisso. Me limito a avançar com os filmes.
Entrevistador: Em festivais de cinema, é comum essa separação entre os gêneros.
Pedro Costa:Em alguns festivais, me parece que as verdadeiras questões são deixadas para trás. Um dos festivais, um brasileiro, se chama É Tudo Verdade. Há outro, na França, chamado Cinema do Real, que é uma coisa inacreditável de tão estúpida. Separar os gêneros é a única questão que não me interessa quando faço um filme.
Entrevistador: Neste momento, existe uma discussão aqui mesmo, em Brasília, sobre dividir o
nosso festival de cinema brasileiro entre filmes de ficção e documentários…
Pedro Costa:Isso não deveria acontecer. Nos festivais, não deveria existir nem a divisão entre curtas e longas-metragens. Daqui a pouco teremos festivais de anões. Já existe o de direitos humanos, direitos dos cães...
Você me pergunta como trataremos a queda e como conduziremos os atores para isso. Você mesmo responde que deixaremos as coisas fluirem. Mas não acredito em um fluxo frouxo. A relação que surge entre realizador e ator - principalmente num projeto como esse - deve ser de absoluta mútua confiança. Não é como se pudéssemos simplesmente deixar nas mãos dos atores. Não é possível. Nossa escolha de olhar, a escolha deles de manter, é tão de retroalimentação, de feedback, que não há como se eximir. São responsabilidaes, conjuntas. Éticas.
Espero que a coisa esteja um pouco mais ensolarada,
Leo.
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